Narciso na praia

(14 de julho de 2021, três e meia da tarde)

Um registro mental, uma fotografia não tirada, uma não-fotografia

 

O menino na praia ajoelhado admirando o seu próprio reflexo numa poça formada na areia com a maré baixa.

A poça era quase circular e tinha o tamanho exato para que o menino nela pudesse mergulhar sem esbarrar nas suas bordas.

Eu caminhava à beira d’água em sua direção, mas só o percebi quando estava a poucos metros de distância.

A sua visão foi uma revelação da figura de Narciso, tantas vezes assim representada em imagens e narrativas, em êxtase com o próprio reflexo na superfície da água.

Reduzi o passo, pensei numa fotografia perfeita, mas desisti de sacar o celular e registrar a cena.

Temi perder tudo. Se ele saísse dali, eu perderia o momento e o registro.

E a ideia de fotografar ameaçava corromper aquele momento. Não apenas interferir na cena (se o menino percebesse estar sendo fotografado), mas, ainda, violar o êxtase do menino admirando a sua imagem refletida sobre o fundo azul do céu.

Uma situação que é, na realidade, bastante incomum. Muito raramente (se alguma vez) temos a oportunidade de vermo-nos refletidos sobre o céu.

A pose era quase clássica. O menino ajoelhado, com uma mão apoiada na areia e a outra com a ponta dos dedos dentro da boca, curvado, debruçado estaticamente (nenhum movimento) fixando a poça.

Naturalmente, o menino poderia ter visto, lido ou ouvido alguma referência à cena de Narciso admirando-se (embora, eu não acredite nisso). Ou, quem sabe, estar posando para uma fotografia? Quando olhei ao redor, não havia ninguém interessado na cena.

Além disso, a foto pareceria encenada, artificialmente preparada. Lembrei do conselho aristotélico de ser mais convincente a representação do impossível verossímil do que a do possível incrível.

A cena era perfeita demais. Não era uma referência ao mito de Narciso, mas uma personificação do momento inaugural do mito.

A surpresa, o encantamento e a adoração extática da própria imagem no instante (ampliado) de sua descoberta e de seu mergulho.

Uma revelação para o menino, naturalmente, não da imagem especular, nem da reflexibilidade da superfície da água, mas a admiração de descobrir-se subitamente ali assim duplicado.

O menino aparentava ter uns nove ou dez anos de idade, o corpo ainda infantil, mas já alongado, como antes da pré-adolescência. Um menino, mais do que uma criança.

Um menino sem nenhuma particularidade marcante. Vestindo uma sunga azul marinho, a pele clara, os cabelos castanhos, cheios e curtos, a expressão vaga, o pensamento longe.

Na verdade, seria impossível reproduzir tal momento. Compor essa cena para uma fotografia envolveria a coincidência de tais condições naturais (incluindo a expressão corporal do menino) que seria impossível não revelar a sua artificialidade.

Continuei caminhando devagar e olhando, ou absorvendo a cena, também numa espécie de êxtase pela revelação súbita daquela imagem – tantas vezes vista quanto imaginada.

Passei por ele enquanto permanecíamos ambos absortos e segui até onde permitiu-me a torção do pescoço. Forçado a desviar o olhar, deixei para trás o menino e a poça, ainda com a imagem na cabeça.

Apesar da satisfação com aquele momento e com o seu registro mental, alguns metros adiante, não resisti à curiosidade. Voltei-me apenas para conferir que ele continuava imóvel – estático e extático.

...

Há muitos e muitos anos (em 1986), presenciei uma cena que me impressionou muito (a ponto de rememora-la aqui, trinta e cinco anos depois).

Em frente a um monumento arquitetônico, um ônibus parou junto à calçada, abriu a porta, e começaram a sair, em fila, turistas japoneses, já empunhando as suas câmeras à frente do rosto, que começavam a fotografar assim que desembarcavam.

Logo, a calçada estava tomada por dezenas de fotógrafos clicando feericamente tudo à volta. Não apenas o monumento, mas eles mesmos, entre si. Ninguém posava, todos fotografavam-se fotografando, e fotografavam-se mutuamente, câmera a câmera.

Nenhum rosto visível, como nenhum rosto apareceria nessas fotos senão por trás de uma câmera. Não havia ninguém no grupo que não estivesse apontando a sua objetiva ora para um ponto, ora para outro e disparando ininterruptamente.

Subitamente (não percebi nenhum chamado ou sinal), todos pararam de clicar, abaixaram as suas máquinas e, no único momento em revelaram seus rostos, todos sorriram simpaticamente entre si. Logo em seguida, voltaram em fila para o ônibus e partiram (provavelmente para repetir a cena em frente ao próximo monumento).

Não sei dizer ao certo quanto tempo durou a parada, mas tudo se passou muito rápido, alguns poucos minutos (se tanto). Nem quanto tempo permaneci ali, ainda impressionado com o que tinha se passado à minha frente, ou com o que eu tinha acabado de testemunhar.

A sensação era equivalente a ter presenciado um crime ocular. A inversão dos termos não é casual. Fui uma testemunha ocular de um crime ocular – um atentado contra a visão e a sua memória.

...

Passados trinta anos (em 2016), a cena repetiu-se quase idêntica à memória visual da primeira, apenas com uma mudança de cenário. Dessa vez, tudo se passou na galeria de um imenso museu de arte, cuja própria arquitetura é admirável e onde estão expostas algumas das mais impressionantes esculturas da história da humanidade.

Mesmo com o afluxo mais ou menos intenso de visitantes, paira no amplo salão uma atmosfera de quietude, um clima de estupefação que nos perpassa na contemplação de obras tão portentosas, questionando a (nossa) capacidade humana de realiza-las.

Isso até adentrar o recinto um grupo de turistas japoneses (não há aqui qualquer preconceito étnico, apenas a constatação de ocorrências coincidentes). Imediatamente, todos – sem exceção – levantaram as suas câmaras e começaram a disparar cliques em profusão. O som, até então esporádico, de cliques, subitamente transformou-se num turbilhão estrepitoso como um tiroteio.

Depois de pouco mais de um minuto, cumprida a missão, da mesma maneira como entrou, o grupo seguiu para a próxima galeria, muito provavelmente, apenas para repetir o mesmo procedimento.

Na ocasião, não os percebi fotografando-se mutuamente, como na primeira vez, mas não vi ninguém tirar o olho do visor, ou abaixar a câmera para apreciar as esculturas a olhos nus. A visão continuava aparelhada, enquadrada pela lente teleobjetiva.

...

Essas cenas me vieram à lembrança associadas às imagens do menino na praia e aos seus registros desaparelhados: a imagem (dele) no reflexo da poça; a imagem (minha) do menino mirando a poça; o registro memorial (dele) de sua imagem refletida na poça; o (meu) registro memorial da imagem do menino Narciso.

Imagens registradas para o resto de nossas vidas, prontas para ressurgências futuras, bem como para o esquecimento eterno.