Corpo coletivo,
bichos, incorporações e coincidências
(encontros com Lygia Clark)
Encontrei Lygia Clark pessoalmente pela primeira vez em
1986 no Paço Imperial do Rio de Janeiro, na inauguração da única grande exposição
retrospectiva de sua obra, ainda em vida, no país – quando os seus Bichos (1960) foram encerrados em
vitrines transparentes que impediam a manipulação pelo público. Uma situação
que a desagradou profundamente e sobre a qual nada pôde fazer, pois já não lhe
pertenciam mais, nem ao público, mas sim a colecionadores que temiam vê-los
danificados se expostos livremente.
Uma escultura normalmente dispensa a proteção de uma redoma;
o aviso não toque, uma linha no chão
e a presença de um vigia são (individual ou conjuntamente) suficientes para
manter as mãos do público à distância da obra. No caso dos Bichos, como convidam justamente à manipulação, cercaram-nos com
gaiolas de vidro.
Aquilo para Lygia era uma traição, exatamente o reverso da
proposição estético-participativa dos Bichos
– com a libertação da obra no espaço e a sua transformação pelo público,
rompendo a distância contemplativa. As gaiolas significavam o reenvio dos bichos
aos não toques que eles vinham, ou
haviam nascido justamente para romper e ultrapassar. Encerrados em redomas, o
que serviu então para superar a distância do público, e talvez reverter um
pouco a decepção de Lygia quanto ao destino dos Bichos, foi o Corpo coletivo
(1970).
Corpo coletivo é uma obra-experiência
de Lygia Clark que foi apresentada publicamente pela primeira vez nessa
exposição do Paço Imperial, em 1986, e da qual participei junto com amigos, artistas
e pessoas do público.
Costurados entre
malhas coloridas formamos uma escultura viva de corpos embaralhados,
embrenhados, emaranhados uns nos outros, em posições e contatos estranhos,
visões incomuns, ombros, pés, coxas, quadris, joelhos, bundas coloridas se
misturando, aparecendo e sumindo em movimentos de envolvimento e interações
múltiplas, formando um só corpo pulsante, ora irrequieto, ora calmo,
desengonçado e harmônico, onde a palavra não se faz necessária nem suficiente, a
boca emudece, a fala contrai – o logos não daria conta do que se passa ali –
por dentro, os olhos surpreendidos, passado algum tempo, dispensam o reconhecimento
e pairam no gozo de formas e cores.
Fechados os olhos,
sentimo-nos órgãos internos desse grande corpo, a malha não é fina e todos nos
despimos e as vestimos ali, na frente do público, o sexo então não aflora, ou não
domina os encontros e as relações corporais, um corpo de todos se instala em
transformações incessantes, não temos controle sobre a situação do próprio
corpo, as malhas unidas por pontos costurados vão sendo recosturadas
por assistentes, perdemos o pleno domínio sobre nossos movimentos que vão ocorrendo
por interação e resistência num jogo-dança de corpos retorcendo-se entre si.
Dá para ouvir e
sentir pulsos, respirações, corações e ruídos variados, do corpo coletivo somos
nós os seus órgãos, a pele não é mais a última camada, ou a sensibilidade para
o contato pele a pele com o outro está restrita ao rosto e às mãos e pés nus, o
resto coberto com malha colorida, somos corpos de cor, massas de cores em
interação viva, brancos, azuis, laranjas, amarelos, marrons, pretos se misturando
como tinta molhada interagindo em movimentos orgânicos irregulares.
(Como no saco com água – Desenhe com o dedo, de 1966 – mas já sem a força externa da mão a desenhar
suas formas.)
A paleta era de Lygia, a proposta também, mas o ritmo das
formas em movimento não, nem dela nem de ninguém, pois ali nenhum corpo decidia
sozinho o seu rumo, bem como não tínhamos qualquer noção da forma vista de fora;
o que ela deve ter visto e sentido então (ao menos isso, depois do que houve
com os Bichos), e junto com o
público, também convidado a participar – havia malhas no chão para serem
vestidas por quem quisesse incorporar-se como mais um órgão ao corpo coletivo.
Foi o que fizemos.
In cor por ação – 1986
Ação realizada pela primeira vez em
1985 num sítio em Jacarepaguá, e depois no Parque Lage (Território Ocupado) e
em Diamantina (MG), em 86 e 87, quando pessoas em trajes de banho, vendadas e pintadas,
atravessavam longos tubos de malha (pretos e brancos), uns túneis como os de
Lygia, mas menores (12m) e mantidos abertos nas extremidades com pneus de
bicicleta e bambolês, não tão claustrofóbicos como os dela propositalmente eram
(50m), não fosse estarem aqui os passantes indo e vindo ao mesmo tempo nos dois
sentidos e vendados, carregando cada um a sua bola de
encher, que tentam instintivamente evitar que estourem (que lhes explodam as
bolas, ou as bexigas). Dentro, a solução para a interrupção do fluxo no engarrafamento
de corpos é o encontrão, a cabeçada, ombrada, palmada,
até a mordida na bunda à frente vale como recurso para tentar provocar o fim do
entravamento e a retomada do fluxo. Ritmos vocais de
Meredith Monk embalam os movimentos nos tubos em meio à floresta de grandes árvores
do parque onde serão pendurados os tubos, virados ao avesso feito colunas
pintadas, ao final. (*primeiro encontro)
Co-incidências (1)
Essa
Incorporação surgiu de outra história:
da observação, em museus e grandes exposições, que o tempo gasto pelas pessoas
curvadas para ler a ficha técnica das obras, sobretudo pinturas (a escultura
impõe-se mais fisicamente), é frequentemente maior do que o tempo dedicado a
olhar as obras mesmas.
Subitamente,
vi um quadro, uma grande tela se enrolando como uma onda estourando e criando
um tubo envolvendo o espectador encurvado em seu interior; e este, dentro do
tubo, vendo-se envolvido pela pintura descreve então pinceladas deslizando, marcando
e tingindo a tela. O duplo sentido de incorporação.
A
tela/malha de algodão elástico maleável pode expandir, retrair, moldar e
acomodar-se aos corpos ao envolvê-los e incorporá-los em si, em terno contato com
a pele. Ao final dos movimentos, os tubos marcados à tinta com os rastros dos
corpos são virados e suspensos em galhos de árvores. A coluna alçada é o
registro da experiência com as os corpos deslizando em seu interior.
Yves
Klein, Lygia Clark, Meredith Monk, Winnicott, incidências
concomitantes, cruzamentos incomuns, limites e espaços. Quantas vias para um
evento? Uma amiga que participou da primeira Incorporação comentou com Lygia sobre a experiência; um conhecido apresentou-nos
no Paço e mencionou a ação; nesse encontro ela me disse que gostava da ideia. Deve
ter se lembrado do Túnel (1973), naturalmente,
mas não comentou. (*segundo encontro)
Co-incidências (2)
Mais
de vinte anos depois do encontro no Paço, em 2010 surgiram outros Bichos, do encontro casual de um ímã com
um cabo de aço, que levou à experimentação do jogo de forças em ação; logo
surgiram desenhos espaciais sustentados pela tensão entre o magnetismo do ímã e
a resistência maleável do cabo – a linha desenvolvendo-se no espaço, desenhando
o espaço – e com a manipulação viraram Bichos
também (terceiro encontro).
Interação.
Jogo. Lúdico ou tenso depende de quem mexe com ele, com quem ele vai jogar. O
seu equilíbrio é o das forças de atração e resistência entre o ímã e o cabo, e
entre o bicho e quem mexe com ele. O manipulador que, impaciente, encontra
problemas para mantê-lo de pé, quando equilibrado (internamente), consegue
desenvolver infindáveis desenhos com a linha no ar.
O
aquário de acrílico transparente, que remonta à redoma do Paço e agora serve
para a guarda temporária do bicho, pede a sua abertura, a libertação do bicho, e
que se mexa com ele: Solte o bicho – Mantenha o equilíbrio
O
espírito de Lygia me acompanha
Co-incidências (3)
Numa noite de 2004 (5 de agosto, por
volta da meia-noite), estava eu sozinho em casa
concentrado escrevendo (à mão) um capítulo da tese de doutorado, quando parei e
pensei que precisava de mais informações sobre algumas obras de Lygia Clark que
eu mencionava no texto. Com a mesa tomada por pilhas de livros e papéis que
vinham se acumulando há alguns dias, resolvi retomar a escrita, para depois
cuidar daquilo.
Poucos segundos se passaram até
que escutei um barulho atrás de mim, de algo caindo no chão. Ainda sentado,
curvei-me para olhar para trás e, embaixo da estante encostada na parede às
minhas costas, lá estava Lygia, rubra, me encarando. (*quarto encontro)
O panfleto de uma exposição
ocorrida anos antes, com o rosto de Lygia impresso em preto sobre fundo
vermelho, havia caído de onde estava entre livros, escorregando por trás da
estante e parando apoiado no rodapé. Quando me curvei e inclinei a cabeça
para olhar embaixo da estante, ficamos face a face, nos encarando, olhos nos
olhos. E o folder, evidentemente, trazia as informações de que eu precisava.
Teria ele caído se não trouxesse
essas informações?
Há quatro possibilidades para
aquela queda. Ou fui eu, ou foi Lygia, fomos os dois ou foi o acaso; o que parece
a hipótese menos plausível e menos científica, pois recusaria evidências
inquestionáveis – para mim e para quem estiver acompanhando a história
(incrédulos não deveriam ter chegado até aqui). A terceira talvez seja a possibilidade
mais plausível, como resultado da interação entre as duas primeiras.
Tendo
sido eu, seria um caso de influência psíquica sobre a realidade, do poder da
minha vontade e da necessidade da informação contida no folder. Eu deveria
saber então, inconscientemente (não pensei na hora, nem me lembrei depois), onde
estaria o que eu precisava e teria resgatado o folder de seus esconderijos
(subconsciente, e entre os livros). Como Pauli e Jung
defendiam a hipótese (ver: Correspondências
significativas entre cientistas visionários).
Tendo
sido Lygia, há que se acreditar no seu espírito presente, evocável, capaz de
influir na realidade (derrubando o folder) e de se comunicar conosco (comigo),
atendendo a uma necessidade que envolvia a sua obra. É preciso, assim, crer na
capacidade de comunicação com esse espírito.
A
despeito do número incontável e incontornável de ocorrências similares, ambas alternativas
são alvo de desconfiança – e a interação entre as duas pouco considerada mesmo
entre crentes e fiéis.
Mistérios
da fé.