Pão e circo

Gostam de dizer que o brasileiro é o povo do jeitinho, do conchavo e do compadrio. E que gosta de levar vantagem em tudo (certo?). Tudo isso envolveria alguma forma de corrupção.

É comum afirmarem que sem uma mudança das atitudes da população não se pode exigir uma mudança de atitude dos políticos. Seria hipocrisia, dizem.

Mas parece que falta um elemento fundamental nessa equação, uma vez que a absoluta maioria dessas práticas (jeitinho, conchavo, corrupção, nepotismo, sonegação) visa uma vantagem de ordem pecuniária – lembramos que cargos são disputados pelo seu poder de acesso a verbas.

Mesmo considerando-se a maioria das práticas políticas nacionais execrável, e, ainda, a população conivente, falta considerar quem gerencia o capital, que, no final das contas, é quem patrocina a política e enreda a população num sistema que quer levar vantagem em tudo, certo?

Se não vejamos. Tomando-se como exemplo um dos maiores bancos privados do país, o Itaú, notícias recentes nos informam que conseguiu superar a expectativa no trimestre, registrando um lucro líquido de 6,2 bilhões de Reais – no semestre, 12,3 bi (15% superior ao mesmo período no ano passado). É, parece que alguns lucram com a crise.

Outras notícias, também recentes, informam que o governo federal perdoou uma dívida de 25 bilhões do mesmo banco com a previdência. E o noticiário informa ainda que a previdência está falida e que a reforma, tirando direitos de trabalhadores (mal) assalariados, necessária e urgente.

Acontece que o sistema financeiro (bancos, corretoras, agências de investimento) é conduzido também por pessoas. Quando falamos Itaú, esquecemos que seres humanos controlam essa máquina de fazer dinheiro, seja qual for o cenário econômico da nação.

Não seria esta a hora dos bem intencionados irmãos banqueiros assumirem responsabilidade pela máquina que os torna bilionários à custa da população? Todos sabem que o dinheiro na conta, ou aplicado no banco rende muito menos do que a taxa de um empréstimo ou financiamento contraído no mesmo banco, e, ainda, uma fração do que é cobrado no cheque especial ou no cartão de crédito.

Ah, mas não dá para mudar isso. É assim que funciona o sistema. E, além disso, existe um conselho, acionistas, etc.

Ora, se os donos de um negócio não podem interferir nas suas práticas abusivas, deveriam vir a público para questionar tais práticas e pressionar para muda-las. Inclusive fazendo uso do dinheiro do próprio banco (suas respectivas e vultosas partes nos lucros) para tal fim.

Iniciativas culturais, sociais e ambientais da ordem de (somadas) menos de 1% do lucro líquido da instituição soam como esmola – pão e circo – para a população.