Perdeu a censura

O que aconteceu com a recente exposição Queermuseu, no Centro Cultural do Banco Santander de Porto alegre, ocorreu também com a obra “Desenhando com terços”, da artista Márcia X. (1959-2005), na exposição “Erótica”, no Centro Cultural do Banco do Brasil do Rio de Janeiro, em 2006 (vide: http://rtamm.net/contra%20censura%20(06).html).

Em ambos os casos, as exposições aconteciam em centros culturais de bancos, e os protestos contra as obras, artistas, curadores, organizadores, e as instituições financeiro-culturais que as abrigavam, partiram de religiosos e políticos que declararam estar agindo em nome da moral e dos bons costumes. Em resposta à veemência de tais ataques e ameaças, ambos os bancos resolveram promover a autocensura: retirando as obras e encerrando a exposição.

Sobre o abuso de tais medidas, sobre censura e autoritarismo, sobre sexualidade e violência na cultura nacional, ou sobre o papel da arte na sociedade, muito se tem publicado e debatido nas redes sociais. E isso, no final das contas, é o efeito contrário ao que pretendiam os novos juízes da arte. Se o seu objetivo era impedir a exposição pública dessas obras, deram um tiro no pé. Nunca foram tão difundidas e conhecidas como nesses casos. O seu alcance acabou superando em muito a visitação e a divulgação regulares dos seus espaços expositivos. Exemplos de arte erótica de todos os tempos e lugares se espalharam como fogo pelas redes sociais. A abrangência local, com a intervenção censória, tornou-se mundial. Deu no NYT. Perderam os censores (os playMoBiL).

Mas é preciso, sempre, muita atenção e cuidado. Os mesmos tenebrosos tentáculos que avançam incessantemente sobre a cultura, avançam, ainda mais ávidos, sobre a educação. Coincidentemente, com o generoso apoio de alguns dos maiores grupos financeiros internacionais.