Racista, eu?
As diversas formas de manifesta�‹o
de preconceito contra diferentes etnias, credos, castas, ra�as, ou cores da
pele n‹o s‹o iguais em todo lugar. ƒ claro que todas as formas de preconceito
s‹o irracionais por princ’pio; n‹o se baseiam em um conceito racional, ou
razo‡vel, e sim numa inst‰ncia prŽ-conceitual. Mas o que alimenta as diversas
formas de preconceito social tem, da mesma maneira, caracter’sticas pr—prias, e
deve ser assim compreendido para ser devidamente combatido.
Mesmo considerando todas as suas
formas abomin‡veis, o preconceito de um europeu contra imigrantes Ž
fundamentalmente diferente do preconceito de um brasileiro branco contra seus
conterr‰neos negros, ou de um brahmin
contra dalits, na êndia. Ainda que igualmente
injustific‡veis, Ž preciso entender as suas origens, e alegadas justificativas,
para revelar a sua arbitrariedade e desconstru’-las conceitual e praticamente.
H‡ ainda uma espŽcie de
preconceito universal, que perpassa (determina e alimenta) muitos dos acima
mencionados, que Ž o preconceito contra os menos privilegiados, pobres e
miser‡veis. ƒ comum ouvir pessoas ricas, ou mesmo as apenas remediadas,
associarem a inatividade a uma pregui�a at‡vica (o atual presidente do pa’s
declarou que quilombolas pesavam muitas arrobas e n‹o serviam nem para
procriar), ou condenarem a pobreza como uma op�‹o. O novo empreendedorismo
afirma que n‹o vence quem n‹o quer. H‡ v’deos de vendedores de todos os tipos
que pretendem provar que se voc� quiser voc� consegue. Evidentemente, isso
funciona para uns poucos. H‡ tantos fatores envolvidos que tornam esses casos
de sucesso t‹o raros como os dos bem sucedidos jogadores de futebol.
O acesso dos menos privilegiados a
‡reas consideradas privilegiadas incomoda os tradicionais detentores do direito
de acesso exclusivo a esses espa�os reservados. Foi contra isso que se manifestou
o atual ministro da economia, condenando o nosso passado recente quando, segundo
ele, empregadas domŽsticas estavam viajando para a Disneyl‰ndia nas fŽrias.
Mas todas essas s‹o formas
evidentes de preconceito que, quando n‹o s‹o declaradas, s‹o facilmente
detectadas. Mais dif’cil Ž perceber e desarmar o preconceito que se disfar�a e
influencia sub-repticiamente nossas a�›es di‡rias. Dois casos recentes por aqui
e que envolveram a quest‹o do racismo na ‡rea cultural revelam uma realidade
que Ž preciso encarar.
Duas mulheres brancas, com boa
forma�‹o e bem intencionadas foram contestadas em seus posicionamentos –
o enfoque do filme da primeira, e a composi�‹o da equipe da sŽrie televisiva da
segunda – e acabaram enfiando os pŽs pelas m‹os na hora de sua defesa.
A primeira, cen—grafa e diretora
de renome, chegou a afirmar, quando confrontada em um debate pœblico, que em vista
das alega�›es apresentadas talvez fosse melhor n‹o ter feito o seu filme.
Depois, em entrevista, voltou atr‡s e se desdisse para defender o trabalho da
equipe, composta de negros e brancos.
A segunda, jornalista e produtora,
questionada pela escolha do diretor e do roteirista, ambos homens e, como ela,
brancos, para tratar da hist—ria de uma mulher negra, num primeiro momento,
alegou a falta de talentos negros para contar a hist—ria, depois pediu
desculpas pela declara�‹o equivocada.
O diretor tambŽm respondeu
publicamente ao questionamento, citando ativistas negros e afirmou que estava
sendo linchado (com toda a impropriedade do termo) por ser branco. Contra ele,
pesa ainda a acusa�‹o de seus filmes e sŽries anteriores glorificarem a
viol�ncia policial, por um lado, ou deturparem os fatos de acordo com uma vers‹o
golpista da nossa hist—ria recente. Posi�‹o que vai frontalmente contra o que
defendia a mulher a ser retratada na sŽrie. A produtora defendeu a escolha
afirmando que o diretor j‡ havia se retratado pelos seus desvios narrativos e
que n‹o caberia a ela julg‡-lo.
Tampouco caberia aqui julgar quem
quer que seja, mas Ž preciso lembrar que a absolvi�‹o de qualquer espŽcie de
acusa�‹o, ap—s o pedido de desculpas do acusado, Ž um julgamento. O que importa
n‹o Ž a acusa�‹o, mas a declara�‹o de que ele se retratou e assim deveria ser
perdoado. A parcialidade de tal ju’zo foi exposta no in’cio do atual governo quando
o (ent‹o futuro) ministro da seguran�a pœblica, o ju’z SŽrgio Moro, declarou
sobre o crime de caixa 2, por ele mesmo tipificado como Òum crime contra a
democraciaÓ, cometido pelo ministro indicado para a casa civil, Onix Lorenzoni:
ÒEle j‡ admitiu e pediu desculpas.Ó
Mas o que se revelou de mais
significativo, nos dois casos, foi o racismo estrutural entranhado em nossa
branquitude (e aqui necessariamente me incluo). Mas n‹o da maneira como foi
alegado pela produtora para defender-se. Ao afirmar que o racismo estrutural
seria respons‡vel pela falta de talentos negros no audiovisual, mencionando um
cineasta negro norte-americano, o que fez foi justamente reafirmar o racismo
estruturante da nossa sociedade, refor�ando o preconceito contra o negro e
justificando a manuten�‹o do privilŽgio local pelo branco.
ƒ importante chamar a aten�‹o para
o fato de que tanto a diretora (do filme) quanto a produtora (da sŽrie) j‡ se
declararam contra qualquer forma de racismo. Ou seja, apesar das boas
inten�›es, nem assim conseguiram perceber o racismo estrutural revelado em suas
pr—prias op�›es e declara�›es. Ali‡s, seria esta mesma a caracter’stica mais
insidiosa dessa espŽcie de racismo: influenciar em nossas a�›es sem que seja
percebido como tal. ƒ preciso aten�‹o para identificar os seus sinais e
humildade para refletir sobre o que conforma as nossas alvas e inocentes op�›es.