
Mariposas e Borboletas
A primeira foto foi tirada no dia 18 de janeiro de 2020.
A segunda foi tirada ontem, dia 6 de agosto de 2021.
Da primeira vez, ela passou um dia por aqui, na parede do meu quarto.
Dessa vez, pousada em outra parede, foi ficando; e passou tantos dias imóvel, que me senti privilegiado por ter sido brindado com o seu último pouso.
Não me animei a fotografar porque havia a outra foto. E ela mesma já estava incorporada ali.
Acabei pensando sobre aquele instantâneo do momento de interrupção da vida eternizado; pensei em mumificação, embalsamento, congelamento, mas nada se parecia com a sua presença pousada-pausada.
Ontem, finalmente, resolvi registrar. Subi numa cadeira para conseguir fotografá-la de perto. Tirei apenas uma foto. Vi que estava legal e salvei no celular. Deixei para comparar com a primeira depois.
Hoje, eu pensei em fotografá-la à distância, mostrando a sua posição no alto da parede, a meio caminho entre a estante e o teto, e, particularmente, em relação a uma imagem pousada numa das prateleiras. Mas deixei para outra hora. Afinal de contas, ela já estava mesmo ali. Mais tarde poderia pensar melhor na luz.
Algum tempo depois, ao conferir a fotografia que ainda iria tirar, pareceu que ela havia mudado um pouco de lugar. Tão pouco que cheguei a duvidar. Foi preciso me certificar em relação à estante e à imagem na prateleira.
Toda a fantasia do último pouso havia se deslocado. Mas, de alguma maneira, ainda estava lá. Um último suspiro, talvez? As forças evanescentes num movimento espasmódico final? Resolvi deixa-la quieta.
Enquanto isso, fui procurar a primeira fotografia no celular (que eu não lembrava mais quando havia tirado). Comparando então as duas fotos, fiquei surpreso com a semelhança no desenho das asas. A segunda parecia a primeira mais desenvolvida. A primeira parecia a infância da segunda.
Seria a mesma? Mas a primeira apareceu em janeiro de 2020, e a segunda em agosto de 2021*.
Quando retornei ao quarto, mais tarde, ela já não estava mais. Voou e eu não vi. O que foi, mais uma vez, surpreendente, já que é um inseto (estranho termo para uma fada) de voo noturno. Mas a sua presença ficou. Me encantou por muitos dias e noites, e deixou a fantasia da relação com a imagem na estante, de alguém que também já voou e deixou a sua presença eternamente no coração.
...
Navegando nas nuvens, encontrei as seguintes pistas:
“Para os povos guajiros da Colômbia, a mariposa branca simboliza o espírito de um antepassado que vem visitar o mundo terreno, por isso ao ser encontrada em casa não deve ser morta. Ela também representa a sorte e a prosperidade.”
“Na tradição dos índios Apaches, aparecer uma mariposa branca é indício que a alma de um ancestral está presente trazendo proteção. Se aparecer uma mariposa de cor branca, ela pode ser anúncio feliz do retorno de alguém que estava distante.”
“As mariposas são intimamente relacionadas às borboletas. Ambas pertencem à ordem Lepidoptera.”
“La palabra mariposa en castellano proviene de Mari, apócope de María, y posa, imperativo de posar.”
“En gallego bolboreta o portugués borboleta, vienen del latín belbellita, formado a partir de bellus, bueno, bonito.”
Obrigado pelo pouso encantado, Maria Isabel, linda Bel, que me ofereceu a maravilhosa vivência de ser pai do Téo. O dia hoje, para mim, é seu.
...
* De um modo geral, muitas espécies de mariposas possuem um tempo de vida que dura apenas algumas poucas semanas. Em outros casos, essa mesma expectativa pode se prolongar até quase 1 ano. (https://www.mundoecologia.com.br/animais/comportamento-da-mariposa-habitos-e-modo-de-vida-do-animal/)
Outros trechos citados:
(https://www.dicionariodesimbolos.com.br/mariposa/)
(https://www.greenme.com.br/informarse/significados/82744-mariposa-significados/)
(https://unaracnidounacamiseta.com/2009/12/23/etimologia-mariposa/)