..++Indignação seletiva

Crianças abandonadas e violentadas, física e emocionalmente, estão presentes na realidade diária do brasileiro, nas ruas, esquinas e estradas de todas as regiões do país, a tal ponto que a maioria se esforça para evitar o contato. Quase ninguém olha, e todos acabam desviando o caminho para não passar perto.

Se forem um pouco maiores, pior. Sua simples presença, mesmo não vista direito, apenas percebida, além de incomodar, ameaça. Crianças e adolescentes, a maioria sem pai nem mãe, sem qualquer forma de amparo, ou condições mínimas de existência, são assim socialmente proscritos – e, consequentemente, explorados à vontade. Nas ruas da cidade, são vultos indefinidos a serem evitados. E não se fala mais nisso.

Mas em relação a crianças e adolescentes econômica e socialmente integrados, parece que muitos se importam e se sentem responsáveis, até mais do que os pais. Em nome de suas crenças – travestidas de moral, bons costumes, valores familiares – pretendem incutir-lhes uma religião, nas escolas, e o falso pudor, nos espaços culturais.

Suas ações são lideradas por um grupo político que, na fachada, proclama um Brasil livre. Mas é preciso entender: o seu movimento quer o país livre de outras religiões, outras crenças, outros credos; livre do corpo, visível, senciente e sensível; livre da arte e da cultura autônomas; livre do livre-pensar, livre das diferenças, livre da filosofia e da sociologia, e, sobretudo, livre de direitos humanos.

É incrível a desfaçatez com que se usam os termos livre e liberal para cercear a liberdade do outro.