Muito se falou recentemente sobre um certo complexo de vira-latas, que seria inerente ao brasileiro e teria sido superado pelo sucesso das Olimpíadas no Rio.

Essa ideia ressoa a frase de Nelson Rodrigues de que o brasileiro cospe na própria imagem no espelho.

Mas, será que, para começar, não seria preciso fazer o reconhecimento e o elogio do vira-latas? Até Walt Disney fez, com o vagabundo.

Vira-latas são admiráveis. Quem já conviveu com um (ou mais) sabe bem como podem ser inteligentes, amorosos e companheiros. São misturados de todo.

Por isso somos sim, brasileiros e brasileiras, genuinamente vira-latas. Temos todas as caras do mundo. Somos todos de variados tipos e misturas. Não há cara nem corpo que não possa ser brasileiro.

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Muitos são os mitos que têm alimentado e perseguido o ser brasileiro. Nas tentativas de definição de suas características e qualificação de sua índole, elegeram o boa-praça e o malandro, assim como a mulher sensual e sexualizada. Exóticos, eróticos e pitorescos, como o Zé Carioca e a Carmem Miranda (a insistência em Disney e Hollywood não é casual).

Mas, assim como a cara e o corpo, também o comportamento de brasileiras e brasileiros é múltiplo. Roberto Arlt, escritor e jornalista argentino que passou um mês por aqui em 1930, descobriu-nos trabalhadores e honestos, mas iletrados e bonachões.

Há milhões de tímidos, reservados, que não sensualizam a sua imagem, nem sexualizam as suas relações. Como há inúmeros vagabundos desonestos, diplomados e atuantes. Ou parte disso e daquilo. Mais uma vez, em um universo de 200 milhões de pessoas, onde os habitantes originais foram e continuam sendo dizimados e restritos a uma mínima proporção da população, somos todos misturas de tudo, desses primeiros e de todos os que vieram depois e aqui ficaram vivendo ao longo dos últimos séculos.

Reconheçamos ou não.