Compadrio e política

O problema do Brasil são as atávicas relações de compadrio. Eu te ajudo e tu me ajudas. (E Judas aqui parece apropriado, já que tudo que tem vindo à tona sobre as relações entre empresários e políticos – magistrados não?! – é baseado em delações premiadas.)

Se nós dois lucramos, compadre, tá tudo certo (ninguém precisa saber).

Compadres, amigos e familiares (mesmo o cunhado esquisitão) são como credores do cargo político alcançado – fizeram campanha, convenceram colegas, catequizaram outros familiares, logo merecem uma retribuição: uma posição, uma nomeação, uma comissão.

Com as relações empresariais dá-se o mesmo: quem financiou a campanha deve ter direito a privilégios não apenas na ocupação de cargos de confiança, secretarias de governo, ou diretorias de empresas públicas, mas também na contratação de empresas privadas para a execução de obras públicas. Uma mão lava a outra e as duas lavam... a cara de pau de contrariar as promessas de campanha e violar a ética (que deveria ser) inerente à responsabilidade do cargo público.

Por parte das empresas, tampouco há o que se desculpar. A alegação de que, não fosse assim, não conseguiriam contratos, é falha. Sabe-se que (em todos os níveis) as próprias empresas oferecem vantagens e agrados para conquistar um cliente ou um contrato.

O ovo ou a galinha, não importa quem teria iniciado o ciclo viciado e vicioso. Se um dos lados não corrobora a prática, o ciclo tende a desandar e falhar. Se as maiores construtoras do país tivessem, conjuntamente (como o fazem em consórcios para concorrência de obras públicas e em lobbies para a aprovação de leis favoráveis ao setor), resistido ao assédio de políticos interessados em angariar propina com a aprovação de obras públicas, ou se políticos, em nome da ética, tivessem refutado os agrados oferecidos por grandes empresas para a aprovação de leis e obras de seu interesse, o ciclo não teria se desenvolvido a tal ponto de se tornar (segundo palavras dos delatores) inevitável e corriqueiro.