A micropolítica é macro

 

De maneira geral, pode-se dizer que o ser humano sente necessidade de mudança[1] e vontade de transformação (de si mesmo, dos costumes, da sociedade), de acordo com os princípios em que acredita – e com as fases da vida.

O que se vai realizar por duas vias: a micropolítica e a macropolítica. À primeira vista parece que a macropolítica, por seu alcance, estaria mais apta para operar mudanças significativas na sociedade, e em menos tempo. Será?    

Antes de entrarmos nessas esferas, no que as diferencia e identifica, vamos falar do termo político, considerando-o como um princípio de posicionamento inerente ao ser, habitante da pólis, onde ele se realiza como ser político, cidadão.

Esse princípio é anterior a uma orientação, ou a um partido. As ações decorrentes desse princípio frente à realidade da pólis, a posição e a atuação, é que serão politicamente orientadas, mais ou menos partidárias – e estruturalmente diferenciadas entre macro e micropolíticas.

Se analisarmos os resultados de algumas ações recentes da esfera macropolítica voltada para a sustentabilidade energética, veremos que, em muitos casos, estão bastante distantes do que poderia ser considerado sustentável de fato. Se o prejuízo em qualquer das dimensões sustentáveis (ambiental, social, econômica, estética) for relevante, pode não ser compensado pelos eventuais benefícios nas outras dimensões, e acabar tornando a ação, ou o empreendimento insustentável.

Recentemente, a instalação do parque eólico de Tubarão no Ceará, por exemplo, está alterando as condições do mar e das areias, prejudicando a pesca e toda a população da região, cujo principal meio de sustento vem do mar.

 

 

Uma andorinha só não faz verão.

O argumento de que uma pessoa sozinha não vai mudar o estado de coisas estabelecido significa dizer que uma mudança só ocorreria se houvesse um movimento em larga escala, com muitas pessoas mudando os seus hábitos, para que houvesse uma transformação significativa das coisas.

Mas como será isso possível se não nos movermos individualmente, por vontade própria? Devemos esperar um comando para que possamos agir conjuntamente obedientes a uma determinação superior? Eu só vou mudar os meus hábitos se todo mundo o fizer? Seremos cordeiros esperando um pastor? Se só me movo com a horda, não sou massa de manobra?

É verdade que uma transformação só ocorrerá quando estivermos voltados para o mesmo objetivo, quando formarmos de fato legiões. Mas legiões formadas por uma força que não depende de liderança, apenas da própria vontade e determinação. O efeito em larga escala vai se dar então pela soma das mudanças individuais. A força de transformação nesse caso será mais resistente porque gerada internamente e sustentada de dentro para fora, a partir de cada um dos seus componentes.

Mudar individualmente sem necessidade de comando exterior é o exercício da liberdade interior, da vontade de ser. O que muda o mundo.



[1] O homem é o ser inadaptado, dizia o arquiteto Sérgio Bernardes (1919-2002).